Couchsurfing e todas as dúvidas que você tinha

A  parte sobre as viagens que eu faço que realmente choca as pessoas e desperta uma curiosidade mórbida é a que envolve o Couchsurfing. Quando eu comento que me hospedo gratuitamente na casa de gente que eu não conheço, eu posso ver nos olhos delas tudo que lhes passa pela cabeça naquele momento. É um misto de admiração pela coragem, somado a um pesar distante que envolve um ‘coitada, vai acabar se dando mal’ não pronunciado,  e dependendo da pessoa, envolve também um brilho de curiosidade genuína, do tipo ‘isso parece legal’.

Eu e umas amigas na casa do Tanguy, em Bruxelas - ele foi meu primeiro Couchsurfer e falava português super bem

Uma tia minha, que eu não tinha visto depois que voltei da Holanda e que encontrei em uma festa de família recentemente, comentou que ficava com o coração na mão cada vez que lia meus posts. E eu não consegui atinar o motivo, até que ela explicou: “você ficava na casa dessas pessoas, não sabia o que ia acontecer…”. E eu expliquei que nunca me aconteceu nada, longe disso, e que todas as experiências com Couchsurfing foram incríveis. “Por sorte!”, completou ela.

O conceito do Couchsurfing é difícil mesmo de ser assimilado pelas gerações mais antigas. Imagina só, abrir sua casa de graça pra alguém que você não conhece. Por que alguém faria algo tão legal se não fosse ganhar nada com isso? O que eu ganho ao colocar alguém dentro da minha casa? Por que eu deveria confiar em alguém que eu mal conheço?

Mas daí eu já acho que, se você não sabe a resposta pra essas perguntas, Couchsurfing (e o mundo, na verdade) não são pra você.

Como funciona esse negócio, afinal?

Acho difícil, mas caso você nunca tenha ouvido falar disso, explico. O Couchsurfing é uma rede social populada por:

  • gente que quer hospedar gratuitamente visitantes de outros países em troca de ter a oportunidade de conviver com culturas diferentes e praticar o idioma;
  •  gente que quer se hospedar gratuitamente na casa de outras pessoas ao redor do mundo;
  • expatriados.

Comumente, os perfis se sobrepõem – boa parte das pessoas faz parte dos três grupos. Não é necessário abrir sua casa para hospedagem se você quiser participar da rede, tampouco se hospedar na casa dos outros. Você pode estar ali só pelos eventos semanais que rolam nas grandes capitais do mundo todo e reúnem 100, 200 pessoas de todos os lugares pra tomar cerveja e falar de qualquer coisa, em qualquer língua. Ou porque quer praticar algum idioma e está disposto a mostrar sua cidade pra um visitante incauto de outro país. Ou porque gosta de conhecer gente.

A verdade é que tanto faz e ninguém vai te cobrar nada. Você cria seu perfil, coloca fotos, preenche tudo direitinho e vai perceber o quão difícil e trabalhoso é fraudar qualquer coisa ali e fingir ser quem você não é. E é isso que garante o alto nível de satisfação e de segurança que o Couchsurfing proporciona.

Por exemplo: pra adicionar alguém como amigo, é preciso preencher uma ficha gigante, informando como você o conheceu, há quanto tempo, se foi pela internet ou pessoalmente, além de deixar uma referência sobre a pessoa. É um saco, na verdade, mas é importante.

Isso certamente não impede completamente alguém de fingir ser alguém que não é, mas dá uma bela canseira no sujeito mal-intencionado, uma que vai fazê-lo cogitar ir a outra rede social mais fácil de fraudar (cof-Facebook-cof) se quiser enganar as pessoas.

Por onde começar

Comece criando um perfil, né. E faça a coisa toda muito bem feita, nada de preguiça. Criar um perfil no Couchsurfing dá tanto trabalho justamente pra criar mais mecanismos de segurança pros membros da comunidade. Então se realmente você quiser participar da parada, deixe de enrolação e preencha tudo muito direitinho. Não economize nas palavras – perfis longos são bem vistos, ao contrário do que poderia acontecer em outras redes sociais.

Coloque suas fotos sendo incrível, várias delas, e pronto – você tem um perfil no Couchsurfing. Se você se conectar com o Facebook vai poder, também, adicionar amigos que muito possivelmente já conhece pessoalmente e que também estão por lá, e esses caras podem te dar referências positivas, importantíssimas pra provar pros seus possíveis hosts que você é você mesmo e que é alguém mais ou menos normal.

Falando em referências…

Essa é uma parte importante. Elas são tipo os testimonials do Orkut, sabe? Você precisa falar ali se a pessoa é legal e explicar o porque. E referências são fundamentais pra conseguir hospedagem – dificilmente um host vai aceitar seu pedido se você não tiver nenhuma.

Ao contrário do que se pensa, hospedar outros fellow Couchsurfers não é a única maneira de conseguir referências.

Você pode:

  • Ver se alguém que já é seu amigo está por lá e pedir uma referência;
  • Se você mora em uma grande cidade, pode frequentar os eventos semanais de Couchsurfing que rolam nas grandes capitais. É só entrar no grupo da cidade e ficar esperto. Todo mundo da rede é bem vindo nesses encontros, que rolam em bares centrais, com cerveja barata e bastante espaço. Em SP, o CS Meeting rola toda terça-feira no Açaí Beach Bar, na Augusta (em frente ao Correio que tem um pouco antes do Ibotirama). Se inscreva no Grupo de SP pra receber as notificações dos eventos.
  • Frequentar qualquer outro evento organizado por Couchsurfers pra conhecer gente que participa da rede;
  • Se oferecer como guia pros viajantes na sua cidade, e ficar disponível para mostrar-lhes os pontos turísticos, tomar um café ou uma cerveja etc.

Como escolher um bom host e mandar um request perfeito?

Na real, eu acho que essa resposta é bem óbvia, mas não parece – me perguntam isso direto. Então vamos deixar as coisas bem claras. O principal atrativo do Couchsurfing não é se hospedar de graça, até porque a gratuidade traz com ela uma série de outras desvantagens: se submeter às regras pessoais do dono da casa, alguma falta de privacidade e de liberdade de viagem dependendo do tipo de couch e de host etc.

O principal atrativo do Couchsurfing é ter um local te mostrando o que você deve ver e visitar, onde comer, o que falar, onder ir. Pode ser até que o que te atraia a princípio seja a hospedagem gratuita, mas garanto, se hospedar via CS demanda uma energia que, se você não está disposto a empregar, vai preferir pagar hotel.

Precisa estar disposto a trocar experiências com o seu host, deixar sua marca ali e fazer ele sentir que valeu a pena te hospedar. E é por isso que a ideia é que você só mande requests pra pessoas que considerar realmente interessantes, pessoas com quem você acha que poderia se dar bem: em resumo, gente da qual você gostaria de ser amigo.

Feito isso, escreva a essa pessoa uma mensagem dizendo exatamente isso e o porque. Faça isso com duas semanas de antecedência, – é o ideal – não muito antes, nem muito depois. E aguarde. :)

Funciona?

Bom, eu já me hospedei via Couchsurfing em Paris, Londres, Bruxelas, Amsterdam e Bucareste. Além disso, conheci outros Couchsurfers em Cusco, na Cidade do Panamá e em São Paulo. Fiz amigos em todos esses lugares, sem contar as pessoas de outros lugares que conheci nos eventos. Pratiquei idioma, saí pra NAITE, tomei cerveja, fiz turismo… sem nenhuma exceção, todas as experiências foram incríveis.

“Se dá pra se hospedar de graça e é tão legal, porque eu vou pagar pra ficar em algum lugar?”

É que, como eu disse, Couchsurfing demanda energia. Compromete boa parte da sua privacidade e, em alguns casos, do seu conforto e da sua liberdade. É por isso que eu recomendo combinar hospedagens diversas – hostel, hotel e CS – pra aproveitar as vantagens de cada uma delas.